Em
noite fria, de inverno, ela descia a pé a rua Consolação, na direção de casa. A
rua estava deserta. Ela caminhava, apreensiva, quando percebeu a aproximação de
um motoqueiro. Andou mais depressa. Ele a acompanhou. Mais depressa ainda. O
motoqueiro sempre ao seu lado. Quando chegou ao prédio onde mora, as pernas
tremiam. Sem forças para subir a escadaria da entrada, voltou-se na direção do
homem, a bolsa na mão direita, pronta para entregá-la ao provável assaltante. O
motoqueiro acelerou, passou rapidamente por ela e gritou: “Amo você, Lygia
Fagundes Telles”. A escritora, surpreendida e aliviada, começou a chorar. O
porteiro saiu da guarita e desceu a escada – “algum problema, D. Lygia?”. Ela
enxugou as lágrimas, disfarçou, tossiu: “não é nada, não. Estou apenas um pouco
resfriada”.
Lygia conta a história e
sorri. Um sorriso generoso, que se desenha nos lábios sempre
bem pintados dessa mulher elegante. Ela se veste com discreta
sofisticação e fala com muito charme. Ri, exibindo dentes perfeitos e brancos,
que nem os cigarros de alguns anos conseguiram manchar. As pessoas em volta
também riem, contaminadas pelo seu humor.
Bebemos vinho. Falamos mal dos governos e
governantes, especialmente de George W. Bush. Fábio Lucas, Anna Maria Martins e
eu relembramos com ela episódios de dias melhores, recordamos amigos que já se
foram para o outro lado das florestas do tempo, como o querido Ricardo Ramos, e
acabamos revivendo alguns sonhos que freqüentemente ainda nos assombram, nas
madrugadas. O que vemos, na verdade, quando estamos no escuro e chegam os
demônios?
“Sonhei que estava num jardim”, conta Lygia. “Mas
era um jardim diferente, estranho. Nada ali se movia.
Nem se ouvia qualquer ruído, naquele lugar sombrio. Dei alguns passos, vi um
banco de pedra e me sentei, tensa e amedrontada. Então, ouvi um barulho atrás
de mim, era alguém que se aproximava. Percebi que era a morte. A morte se
aproximava de mim pelas costas, mas eu não podia me virar, porque, se fizesse
isso, ela me levaria embora. Então, senti uma mão no ombro – e acordei
sobressaltada”.
Todos sorrimos. “O que você fez, Lygia?” pergunta
Anna Maria. Escrevi o conto A mão no ombro, responde a escritora, desta
vez sem sorrir. Ela ergue sua taça de vinho tinto: “um brinde aos escritores –
e ao nosso futuro”.
Lygia é escritora militante, participa sempre de
encontros, seminários, debates. Acaba de chegar do 12º Salão do Livro de Paris.
Recebe convites freqüentes para fazer conferências, porque é uma
conferencista fascinante, carismática, que sempre emociona quem a ouve.
Em 2001, esteve no UniFIAMFAAM a meu convite e neste
ano, no UniFMU. Falou, contou histórias, pregou o
amor incondicional à palavra escrita, à literatura. Vi que muitos jovens –
moças e rapazes – choravam, durante a palestra. Depois, todos queriam se aproximar
dela, tocá-la. Estavam realmente fascinados.
Ela nasceu em São Paulo, na rua Barão de Tatuí,
no Centro, mas passou a infância em pequenas cidades do interior do Estado
(Sertãozinho, Areias, Assis, Apiaí e Descalvado), em
razão do trabalho de seu pai, o advogado Durval de
Azevedo Fagundes, delegado e promotor público. A mãe, Maria do Rosário, era
pianista. A própria Lygia teve aulas de piano – além de canto e balé. As quatro
filhas do casal – ela é a caçula – receberam formação rigorosa.
Em São Paulo, estudou no Instituto Caetano de Campos, freqüentou a
Escola Superior de Educação Física e foi uma das primeiras mulheres a ingressar
na tradicional Faculdade de Direito de São Francisco, em 1941. Depois,
tornou-se procuradora, hoje aposentada. Foi casada com o
jurista Goffredo da Silva Telles (“era um homem
lindo, e eu, como sua aluna, fazia questão de me sentar na primeira fila, para
vê-lo de perto”) com quem teve um filho, também de nome Goffredo, cineasta recentemente falecido. Separada,
casou-se novamente, desta vez com o escritor Paulo Emílio Salles Gomes, que
faleceu em 1977.
Hoje, mora sozinha num simpático apartamento na
rua Consolação, entre obras de arte e a memória de muitos gatos, que criava até
pouco tempo atrás. Ali se refugia. Ali trabalha. Ali escreve. Às vezes, viaja
para Águas de Lindóia, para descansar – e escrever. Ela faz da literatura “uma
forma de amor”.
Lygia começou a escrever muito cedo, mas
considera seus primeiros livros “imaturos e precipitados”. Sua consagração como
escritora veio em 1954, com a publicação de
Ciranda de Pedra. Teve seus livros traduzidos para o alemão, o
espanhol, o francês, o inglês, o italiano, o sueco, o tcheco e o chinês. Já
vendeu mais de um milhão de livros. Sua obra foi levada para o cinema, o teatro
e a televisão. Recebeu diversos prêmios, como o Jabuti, o Prêmio Coelho Neto,
o Prêmio Guimarães Rosa, o Prêmio Nava
e o Prêmio do Instituto Nacional do Livro, entre outros.
Num tempo deselegante, Lygia fala e escreve com elegância. Num mundo ameaçado de naufragar nas areias das mudanças, ela ainda representa a esperança em dias melhores. Se atravessamos de fato um período de incertezas, de desencontros, de ausência de solidariedade; se a falta de leitura nos empobrece e nos torna menos capazes de compreender o cenário que nos cerca e de indicar as soluções possíveis para os problemas que nos desafiam; se estamos efetivamente nos desumanizando, e a perda da sensibilidade abre caminho para os velhos demônios do autoritarismo, então, esta mulher íntegra e corajosa é realmente uma das luzes no fim do nosso túnel.
Rodolfo Konder é
jornalista, escritor, Diretor Cultural do FMU, Diretor do MASP, Conselheiro da
UBE e cronista da Rádio Cultura FM.